“Nada é mais repugnante do que a maioria, pois ela compõe-se de uns poucos antecessores enérgicos; velhacos que se acomodam; de fracos, que se assimilam, e da massa que vai atrás de rastros, sem nem de longe saber o que quer.”
(Goethe)
Todo mundo conhece Leonardo Boff. O autor da “Teologia da Libertação”. Muito debatida nos anos 80, ela teria como propósito a opção pelos pobres, porém, segundo Boff, a partir de uma libertação através de recursos espirituais e éticos. Trabalhar pelos pobres não parece exatamente uma novidade que a igreja não pregue. Por que, então, o Vaticano foi e continua tão contrário às idéias suscitadas pela TL? Por uma fundamental diferença: em vez do assistencialismo (os pobres como objeto de ajuda, compaixão ou caridade), que mantém o indivíduo na dependência, os pobres seriam colocados como protagonistas da própria história, ou seja, devem mover-se com ferramentas proporcionadas por momentos de indignação, resistência e libertação (por favor, não confundir com MST e outros movimentos oportunistas e criminosos).
Obs.: com tantas idéias revolucionárias, não é de se admirar que em 1984, o Vaticano proibiu o então frei Boff de continuar as discussões sobre a TL. Ainda em 84, frei Boff foi punido com um ano de “silêncio obsequioso” pela Igreja. Mas ele continuou sendo ameaçado, e mais ou menos oito anos depois, encheu o saco, decidiu renunciar às suas atividades de padre e se “auto-promoveu” ao estado leigo, veja você…).
Pois bem, nem vou me alongar discutindo se a teoria de Leonardo Boff é utópica ou não. O fato é que eu acabei lendo muita coisa dele, e especialmente um livro chamado “A águia e a galinha“. É, evidentemente, uma metáfora, até bem óbvia, que surgiu através das palavras de um educador ganês chamado James Aggrey. Por incrível que pareça, histórias desse tipo tiveram um papel muito bacana durante o processo de proclamação da independência de Gana, rompendo com a administração colonial inglesa. James Aggrey incentivava em seus compatriotas ganeses sentimentos de solidariedade e autonomia.
A história que James Aggrey conta é a seguinte (reprodução do livro):
[Em meados de 1925, James havia participado de uma reunião de lideranças populares na qual se discutiam os caminhos da libertação do domínio colonial inglês. As opiniões se dividiam.
Alguns queriam o caminho armado. Outros, o caminho da organização política do povo, caminho que efetivamente triunfou sob a liderança de Kwame N'Krumah (nota: N'Krumah fundou oPartido da Convenção do Povo, foi eleito Primeiro-ministro em 1952 e proclamou a independência em 1957). Outros se conformavam com a colonização à qual toda a África estava submetida. E havia também aqueles que se deixavam seduzir pela retórica dos ingleses. Eram favoráveis à presença inglesa como forma de modernização e de inserção no grande mundo tido como civilizado e moderno.
James Aggrey, como fino educador, acompanhava atentamente cada intervenção. Num dado momento, porém, viu que líderes importantes apoiavam a causa inglesa. Faziam letra morta de toda a história passada e renunciavam aos sonhos de libertação. Ergueu então a mão e pediu a palavra. Com grande calma, própria de um sábio, e com certa solenidade, contou a seguinte história:
“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
- Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.
- De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ele não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
- Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
- Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
- Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
- Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez, Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, já que você petrence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus polhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmemento…”
E Aggrey terminou conclamando:
- Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.]
Assim que eu assumi a direção de uma determinada empresa, fiz questão de dar um exemplar desse livro para cada um dos meus gerentes. A idéia era simples: a moral dos funcionários estava em baixa, a empresa havia sido tratada como armazém de refugos por muitos anos, e como galinhas nós não conseguiríamos nada. Nem sei se todos leram o livro, eu nunca cobrei isso. O que eu não queria é que as pessoas voassem nas asas dos outros. Se eu obtive sucesso? Sim, eu obtive. Mas nem todas as águias querem ouvir um sussurro ao ouvido.


