ENQUANTO ISSO, NAQUELE CAMINHO parte II

Meu companheiro de frias Hachide está neste momento numa outra saga. O demente em questão e mais alguns amigos resolveram ir e voltar de moto de São Paulo até Santigo do Chile, Bariloche e o ânus da Patagônia (uns 8mil km). Em 15 dias. Como sempre, uma idéia sensacional rsrs! Ele até iniciou um blog da viagem, mas atualização mesmo, por enquanto, só por uns tweets porcos (só porque eu falei hoje ele resolveu atualizar…)

Eu sinto falta dessas roubadas, e pra matar a saudade dessas experiências que não servem pra nada, resolvi colocar mais um post sobre aquela trilha que fizemos (ou quase), naquele país ibérico, denominada em função daquele santo, compreendendo aquele tanto de quilômetros, inspirando aqueles sentimentos, respirando aquele ar, naquelas condições super legais. Muita gente pediu mais um capítulo e eu estou atendendo, mas vou logo avisando que essas descrições que eu coloco aqui não afetam a integridade do livro, que está escrito mas jamais será publicado, ok?

Então vamos lá. É o dia seguinte ao primeiro dia de caminhada (que vc pode acompanhar aqui):

25/04/2003: Às 3 da manhã o Lombada (Hachide), que se encontrava na parte de cima do beliche ao lado, me sussurra e pergunta se eu estava acordado. Óbvio! Então combinamos de levantar às 5:00 para não termos que ficar mais na cama. Que situação… Para ajudar a passar o tempo, Lombada ficava contando mentalmente o número de vigas da construção do alojamento (primeiro na vertical, depois na horizontal, depois de baixo pra cima, de cima pra baixo, da esquerda pra direita, da direita pra esquerda, na transversal etc. Tenho certeza de que mais um pouquinho ele chegaria a uma equação matemática digna de John Nash, e a humanidade não teria esperado em vão para conhecer o “Primeiro Corolário de Hachide”.

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Saindo do albergue, cara de lenhador, ainda na fase Kavanha, animado pra cacete...

6:15 na porta do albergue, equipados e dispostos a encarar o 2o.dia… e o Papa apareceu (depois eu falo sobre o Papa) e fez um sinal tipo: – Vamos? Nós nos olhamos e fomos atrás. Quer dizer, quase atrás, pois em meio minuto o homem sumiu completamente no meio da escuridão que ainda se fazia presente no amanhecer de Roncesvalles.  Nessa parte nós ainda estávamos andando juntos, até que chegamos a um vilarejo no qual havia um supermercado. Parecia miragem!!! Estávamos mais uma vez sem café da manhã e finalmente iríamos comer. Ahh! Foi o pão com salame, atum e queijo mais delicioso que eu já comi, com duas garrafas de Gatorade.

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Não acredito, finalmente um mercadinho!!!

Refeitos, seguimos, mas aí eu fui no meu ritmo e o Lombada no dele. Sei lá, eu não estou competindo com ninguém, mas o meu passo é naturalmente mais rápido e, devo dizer, no nível dos mais fortes nas etapas (fudidão!). Creio que parte disso deve-se ao fato de que a minha mochila está mais pesada que a do Lombada, pois além do notebook e câmera, carrego também todos os respectivos cabos. E não dá pra ficar molengando, senão o peso fica mais evidente e não dá nenhuma vontade de andar. Fora as garrafinhas de água. Andando 27 km não pode bobear… E caminhando mais rapidamente posso também fazer mais paradas, apreciar as paisagens e pensar nas merdas e em tudo o que representa esta etapa (no final concluí que não representou porra nenhuma). Enfim, fui na frente e fiz uma parada de meia hora pra esperar o Lombada. Nos encontramos e trocamos umas mensagens de incentivo tipo “Tá foda, hein?, ou “Minha bota tá me matando”, ou “Só faltam uns 22 km”. Aí nos despedimos novamente e daí em diante fui direto até o albergue de Zubiri, onde muitos peregrinos estavam indo. Mas o combinado era seguir direto pra Larrasoaña, 5km mais a frente (malditos!). Combinado, cumprido. Em muitas partes do caminho você dá uma pirada, principalmente quando fica sozinho, e se vê cantando músicas adormecidas na memória. Eu, por exemplo, sempre cantava “Only The Good Die Young”, do Iron hehe… É que eu estava muito bem de corpo e espírito, entende?

Encontrei o Mário (um dos brasileiros, gaúcho, que conhecemos aqui) e juntos fomos até o albergue daquela cidade. Fomos falando de nossas vidas e das nossas decisões. Ele contou que é piloto agrícola e trabalha apenas no verão (pilota avião, não trator…). Disse que já tinha uns 8 anos que estava querendo vir, mas nunca dava certo, até que desta vez ele veio. Falou que leu Paulo Coelho mas não gostou muito do cara (se ele falasse que odiava o tal escritor, ganharia ainda  mais pontos comigo)

Eu e Mário chegamos ao albergue às 14:30 e conseguimos uma cama entre as 16 que existiam. O restante teve que deitar em colchões no chão, inclusive o Lombada, que chegou 1h30 depois (meu amigo tá sofrendo…, tô com dó). E o pior é que ele deitou ao lado do mesmo italiano que soprou ronco na minha cara na noite passada. Tá lascado!

Lavei umas roupas, pus as mesmas pra secar e fiquei deitado com as pernas ao sol pra ver se eliminava a mufutanga dos meus pés (Dear Lord, tá cada dia pior!!!) Mas com o sol melhorou a lot! Fui pra cama atualizar os relatos e nessas horas eu sempre tento ser o mais discreto possível pois não é fácil abrir um laptop de 3kg (era 2003, lembra?) sem fazer alarde (e sempre tem um monte de olhudo e curioso vindo perguntar…) Mas como dizia aquele grande filósofo contemporâneo Cléber Bam-Bam: “Faz parte”…

Credenciales Papa y Hachide

Papa e Lombada, uma pequena diferença no número de carimbos da Credencial...

Mais à tarde, os brasileiros (Caveira (eu), Lombada, Mário e Ricardo) saíram pra relaxar no bar do Sr. Sangalo (uma figura, o pai da Ivete é daqueles espanhóis de voz forte e fazia piadas com os brasileiros o tempo inteiro). Ficamos lá papeando e adivinhe quem apareceu: o Papa. Agora vou contar sobre ele: o Papa-léguas é um senhor alemão de quase 67 anos que é a cara do Papa (João Paulo II). Nós o conhecemos no início da descida da etapa de St. Jean e ele não desgrudou mais. Ele não fala nada de inglês e nós nada de alemão, então a comunicação é apenas metafísica. Acho que ele me adotou, pois sempre me pedia pra ajudá-lo ou combinava alguma coisa comigo. Pelo que pude decifrar ele contou que está vindo de 8 países a pé (!!!) e já fez 25 vezes o Caminho de Santiago (afinal ele é o Papa…). Falar o quê? E sem esquecer que ele tem as pernas clac-clac…

Pedimos o Menu del Peregrino daquele dia e voltamos pro albergue, onde ficamos conversando com o Santiago, responsável pelo albergue. Uma figura fantástica, carismática, de um coração enorme, acolhedor, sensível, puro, inesquecível (hahaha) que adora brasileiros e que ajuda todo mundo. Até me emprestou o celular pra eu fazer umas ligações (locales, é claro…).

Aí chegou a hora de dormir, o desespero de todo dia:

Nesse albergue os beliches são grudados uns nos outros de dois em dois, o que significa que não tem jeito, colado em vc vai dormir alguém. A gente só fica rezando para que seja alguém que não ronque muito alto. Antes de dormir eu dei uma olhada pra figura que ia “dividir a cama” comigo: um espanhol magrinho e com cara de poucos amigos. Não me animei muito e já pressenti o pior, pois o cara já baforava só de arrumar a mochila dele, então já viu como ia ser quando dormisse… Ah, mas por mais certo que eu estivesse, não podia imaginar o verdadeiro inferno que viria: depois de uns 5 minutos após deitar, a “coisa” do meu lado abriu o saco de dormir e a perninha magra dele já caiu parte na minha cama. Deprimente! Empurrei-a de volta com o joelho (estávamos os dois na parte de cima). Logo a seguir ele começou a roncar (nada muito forte, mas irritante). E como fedia o desgraçado! Uma carniça finíssima. Aí veio o que eu mais temia: sem a menor cerimônia, o filho da puta começou a emitir bombas de gás , e juro, não eram aqueles peidos de fininho que as pessoas dão quase travando o botico… eram aqueles altos tipo PRÁÁÁÁÁÁÁ!!!, e na minha direção. Que Hijo! Assoprei com toda a força dos pulmões e implorei ao Nazareno: “Jesus, me proteja neste momento de putrefação explícita e falta de educação ao meu lado!!!!!!!” Não adiantou: um minuto depois, o cara deu outro mais forte… PQP, isso misturado com o chulé e a podridão do CC da galera, tava pior que aterro sanitário. E o que eu podia fazer? Brigar com o cara e ser linchado pelos outros que queriam dormir?  Peguei então minhas coisas e fui dormir no chão gelado da entrada do albergue. Um americano que acompanhava toda a lamentável cena me viu fazendo isso e me seguiu, disse que também não tava conseguindo aguentar. Ricardo e Mário continuaram no esgoto, não sei como. É claro que não dormi muito bem, mas pelo menos respirei ar limpo… Que situação, e é só o segundo dia…

FORGIVE ME IF I DON’T WAIT UP…

This temperamental side,
The one you say that you can’t hide.
D’ you ever see yourself -
The way it looks to someone else?
This temperamental trick,
The one you say you can’t predict.
You’re like an empty cup.
Forgive me if I don’t wait up.
I don’t get where you’re coming from -
What is real and what’s put on,
What has stayed and what has gone.
How long will this thing go on and on?

I don’t want you to love me.
I don’t want you to love me.

You’re like an empty cup,
But I can’t fill you up.
What planet are you on?
Not the same one I am from.
Do I just waste my time?
You pour your heart on mine.
You think it screws you up.
Forgive me if I don’t wait up.
I don’t get what you’re trying to say -
What is wrong and what’s okay.
You beat yourself up one more time.
You trample on this fierce heart of mine.

I don’t want you to love me.
I don’t want you to love me.

I don’t know what you want from me.
All this endless sympathy.
You beat yourself up one more time.
You trample on this fierce heart of mine.

 

I don’t want you too lovely.
I don’t want you to love me.
(“Temperamental”, Everything But The Girl)

ETIMOLOGIA DO BÁSICO

Pode me chamar de cri-cri, chato, mala sem alça com zíper quebrado ou coisa similar. Mas eu tenho certeza de que nós nos livraríamos de muitos problemas se soubéssemos usar as palavras de acordo com seus significados.

Um exemplo? Eu os declaro “marido e mulher“. Mas por que diabos (ops!) o padre não fala marido e esposa? Esposa tem outra representação. É machismo, não é? Vc por acaso já ouviu alguma mulher se referir a seu marido como meu homem? – Boa noite, gostaria de lhe apresentar o meu homem… – Hã?!?!?! Então porque o contrário é tão tacitamente aceito? Bom, eu não vou entrar no mérito do uso do pronome possessivo, senão ia ser demais (em vez de minha esposa, o que diríamos? – Olá, você conhece a pessoa que está casada comigo até o momento? Não dá, né? A mulher da minha vida é legal. Mas minha mulher é do peru…

Não tenho procuração para defender nenhum ser do sexo feminino (nem sei se tal questão os incomoda), mas eu acho isso o fim. Aí o fulano já martelou tanto na cabeça que aquela pessoa é a mulher dele, que fica difícil entrar em igualdade. E depois de um tempo, mesmo sem se dar conta, a mulher (esposa) cansa. E tem início a vingança. É como se houvesse uma autorização para explorar o outro; o outro vira um meio para alcançar satisfação. Mas ninguém está aqui para ser usado como objeto, não é mesmo? E tudo pode ter começado com a falta de atenção ao emprego de uma palavra.

Dá pra perceber que não é necessário torrar tanto dinheiro no psicanalista. No máximo, o que ele pode fazer é nos ajudar a analisar cada padrão da nossa vida por nós mesmos. Se ele conseguir isso, cumpriu o objetivo. Além do mais, é mais simples do que se imagina!!! É só observar e é evidente que seremos capazes de perceber o que está acontecendo (não só nessa ladainha de marido e esposa).

caveman dict

Isso me faz lembrar de outro exemplo etimológico. A palavra happiness (inglês para felicidade) tem sua origem na palavra escandinava hap. A palavra happening (acontecer, em português) também vem da mesma raiz. Happiness (felicidade) é aquilo que happens (acontece). Não é possível produzí-la, não é possível criá-la, não é possível forçá-la, você não pode batalhar por ela. Pode-se apenas estar disponível a ela. Sempre que ela acontece, it happens (ela acontece)…

Não é mais ou menos assim?

ABUNDÂNCIA

“A libertação, para mim, não está na renúncia. Sinto o abraço da liberdade em mil laços de prazer.

Tu sempre estás vertendo para mim o gole de teu vinho de várias cores e perfumes, enchendo este vaso de barro até as bordas.

Meu mundo acenderá suas centenas de diferentes lamparinas com tua chama, e depois as colocará diante do altar de teu templo.

Não! Jamais fecharei as portas de meus sentidos. os prazeres de meus olhos, de meus ouvidos e de meu tato estarão sempre cheios de teu prazer.

Sim! Minhas ilusões todas se acenderão num raio de alegria, e todos os meus desejos amadurecerão em frutos de amor.”

(trecho de “Gitanjali”, Tagore… explodindo em vida)

RELAXA, RUBINHO…

Bem, eu estava pronto para escrever alguma coisa sobre o Barrichello. Mas aí li o texto que o Flávio Gomes postou no blog dele, o que me poupou o trabalho. Segue abaixo a reprodução do mesmo. Encerra o que eu penso sobre o Rubinho (e demais assuntos mencionados):

EM DEFESA DE BARRICHELLO

rubinhoDe todas as pessoas que encontrei hoje, ouvi: “Esse Rubinho é um cagado, mesmo”, “Puta azar deu o Rubinho”, “Esse Rubinho é muito ruim”, “O cara é muito azarado, tinha de furar um pneu?”, “Esse cara é muito ruim, não vai ser campeão nunca”, “Quando a gente mais espera dele, faz isso”.

E algumas variáveis sobre o mesmo tema.

Eu já tinha dessa impressão, mas depois deste fim de semana, tenho certeza. O problema de Barrichello não é ele, não são seus carros, não são seus companheiros de equipe. O problema de Barrichello é a TV Globo.

E por que a Globo, e não toda a mídia? Porque não se deve ter nenhuma ilusão. A imensa maioria das pessoas no Brasil só se informa sobre F-1 pela Globo. “Se informa” é um eufemismo, melhor corrigir. Digamos que a cultura de F-1 que a imensa maioria das pessoas tem no Brasil vem daquilo que a Globo diz.

E a Globo só diz besteira. A cultura de F-1 do brasileiro médio é zero, talhada pelas cascatas globais.

Barrichello não fez nada de errado ontem, não errou ao tentar a pole com o carro mais leve, não teve azar nenhum, não foi cagado. Mas a histeria global, martelada dia após dia — e quando a corrida é no Brasil, e ele está na pole, chega a ser quase uma lavagem cerebral, uma lobotomia —, faz com que o público aqui acredite que Rubinho do Brasil tem a obrigação de ganhar, e se não ganhar, das duas uma: ou sacanearam com ele, ou é um cagado que não tem mais jeito.

As pessoas veem uma corrida de F-1 aqui com zero de informação honesta. Ontem, depois de dez voltas já era possível afirmar que Rubens não venceria a prova. Simples: não abria de Webber e iria parar cinco voltas antes nos boxes. Cinco voltas, com um carro mais rápido e cada vez mais leve, seriam mais do que suficientes para Webber voltar à sua frente do pit stop. E Kubica, também. Ambos passaram.

Rubens apostou no clima instável de São Paulo, no que fez muito bem. Larga na pole, pula na frente, vai que chove no início, todos têm de parar, a vantagem do carro mais pesado é anulada. Ou, ainda: acontece alguma merda atrás dele, Webber se enrosca, Kubica bate, fica para trás, e a vantagem é igualmente anulada.

Mas há uma desonestidade editorial clara naquilo que a Globo faz, alimentando uma expectativa que não poderá ser cumprida. Porque corrida de carro é muito mais do que essa gritaria de “Vâmo, Rubinho!”, “Não erra agora, Rubinho!”, “Acelera, Rubinho!”. Corrida de carro tem lógica, é matemática, e quem mostra um evento desses a milhões de pessoas tem a obrigação de ser honesto.

Porque se não for, as pessoas não têm elementos para entender a derrota. E se amparam na explicação que está à mão: o cara é cagado, dá azar, não vai ganhar nunca. Ou, ainda: furaram o pneu dele de propósito.

E, aí, vai-se criando a fama, dia após dia, de perdedor, azarado, cagado. Uma farsa, uma mentira. A TV mente o tempo todo. Foi assim nos anos pós-Senna, em que Barrichello, de Jordan ou Stewart, não tinha a menor chance de ganhar uma corrida, embora a TV dissesse o contrário. Porque corria contra Williams, Ferrari, McLaren, Benetton. Depois, na Ferrari, a venda de ilusões baratas era igualmente cruel, porque contra um piloto como Schumacher, Barrichello jamais seria campeão. Não seria porque Schumacher era muito melhor. Se eu for companheiro de Barrichello numa corrida de qualquer coisa, não terei chance alguma de andar na frente dele. Deem um kart para ele e outro para mim, e ele vai chegar na frente todas as vezes. Entreguem um Lada igualzinho ao meu, e não vou ser mais rápido que ele nunca, em nenhuma volta.

Mas a Globo vende a esperança, porque acha que as pessoas só vão se interessar por seu evento se houver a chance de um brasileiro vencer, mesmo se for uma mentira deslavada, como na maioria das vezes. É um engodo, e uma sacanagem com o piloto. A expectativa que se cria por seus resultados é criada na TV. OK, muitas vezes Rubens embarcou na onda, mas é o menor dos culpados.

Se a TV não se dedicasse tanto a iludir seus telespectadores tratados como otários, Barrichello não seria zoado como é há anos, pela Globo inclusive. Poderia conduzir sua carreira com mais tranquilidade e serenidade. Ele não tem a obrigação de vencer por ninguém, pelo povo, pelo país. Tem obrigação de trabalhar direito para quem lhe paga, e por ele mesmo.

Um dia depois de uma corrida normal, na qual fez o que podia fazer dentro dos limites de seu carro e de seu talento, o coitado tem de aguentar um tijolo a mais nessa construção de uma imagem que não corresponde à realidade. Barrichello pode não ser o melhor piloto do mundo, está longe disso, mas é um dos bons dos últimos anos, como outros tantos. Nem muito mais, nem muito menos. Não estaria há tanto tempo correndo se não tivesse qualidades.

Quando parar, muito provavelmente sem ter sido campeão, terá para sempre colado na testa o rótulo de cagado, azarado, lento, o que for. Pode agradecer à TV por isso. Foi ela que, nesses anos todos, disse ao Brasil que Rubens era algo que nunca foi. Talvez ele nunca entenda isso, até porque adora ser bajulado pela Globo, com seu pseudo-jornalismo esportivo meloso, ufanista e cascateiro. Mas é assim.


J’AURAI TOUJOURS FAIM DE MUSIQUE…

Eu ainda molhava as calças quando o Police veio fazer um show no Maracanãzinho. Lembro que havia uma chamada do show na TV e nele, trechos de “Every little thing she does is magic“. Gostei daquele ritmo e da música que eu não conhecia. Claro que não pude ir ao show, mas eu passei a querer então o disco. Atazanei (tem palavra que a gente se acostuma a falar direto, mas quando resolver escrever fica esquisita – atazanar, por exemplo), bem, atazanei a paciência da minha irmã por um bom tempo até que ela me comprou o disco daquela turnê (“Ghost In The Machine“). O meu primeiro álbum de rock! Claro que à medida que fui crescendo e pesquisando outros tipos de música (e estilos diferentes de rock), fui percebendo que o Police não era, assim, tuuuuuudo aquilo, mas esse álbum me fez trocar muita agulha, de tanto que eu ouvia. Tinha até música em francês (j’aurai toujours faim de toi - Hungry for You). Apesar de ser um álbum de rock, a assimilação era meio difícil, meio soturna, tinha uns metais que flertavam com o jazz mas não se entregavam totalmente. Foi complicado. E, mesmo molequinho mijado, aprendi a ouvir e a gostar.

“Darkness” fechava o disco. Eu demorei pra prestar mais atenção nela. Meio desinteressada, deslocada, quase uma wallflower, depois de um disco tão complexo era natural que isso acontecesse. Mas aí, um dia, eu escutei de verdade. E passei a definir o meu primeiro disco de rock através dessa música (que nem é, tipo, um rock):

I can dream up schemes when I’m sitting in my seat
I don’t see any flaws ’til I get to my feet
I wish I never woke up this morning
Life was easy when it was boring

I could make a mark if it weren’t so dark
I could be replaced by any bright spark
But darkness makes me fumble
For a key, to a door that’s wide open

Instead of worrying about my clothes
I could be someone that nobody knows
I wish I never woke up this morning
Life was easy when it was boring

I can dream up schemes when I’m sitting in my seat
I don’t see any flaws ’til I get to my feet
I wish I never woke up this morning
Life was easy when it was boring
I wish I never woke up this morning
Life was easy when it was boring

E só pra complementar, lembro também, na época daquele show, de ter ouvido no rádio uma outra música deles, numa gravação ao vivo. Por muito tempo eu só sabia cantarolar o refrão, mas nada que atazanar (olha ela aí de novo) o vendedor de uma loja de discos não me fizesse descobrir qual era a música. Essa sim, é rock:

Sleep lay behind me like a broken ocean
Strange waking dreams before my eyes unfold
You lay there sleeping like an open doorway
I stepped outside myself and felt so cold
Take a look at my new toy
It’ll blow your head in two, oh boy

Truth hits everybody, truth hits everyone
Truth hits everybody, truth hits everyone
Truth hits everybody, truth hits everyone

I thought about it and my dream was broken
I clutch at images like dying breath
And I don’t want to make a fuss about it
The only certain thing in life is death
Take a look at my new toy
It’ll blow your head in two, oh boy
Truth hits everybody, truth hits everyone
Truth hits everybody, truth hits everyone
Truth hits everybody, truth hits everyone

Where you want to be, won’t you ever see?
Truth hits everybody, truth hits everyone
Truth hits everybody, truth hits everyone
Truth hits everybody, truth hits everyone
Truth hits everybody, truth hits everyone
Truth hits everybody, truth hits everyone
Truth hits everybody, truth hits everyone

Ah….now! (The Police, “Truth Hits Everybody“)

SALVAÇÃO COM PEDÁGIO?

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BORRANDO AS CALÇAS NO EVEREST

Eu já mencionei aqui no Blogauskis que tenho certa fascinação por alpinismo. No gelo, mais propriamente. O Everest andou no meu imaginário por um bom tempo, quando devorei alguns livros bem bacanas (vide esse post aqui). E agora eu volto ao assunto para uma dica de série de TV. Acabei de assistir as duas primeiras temporadas da série “Everest: Beyond The Limit“, produzida pelo Discovery Channel. É o relato em vídeo das expedições de Russel Brice (dono da Hymex – Hymalaian Experience), nos anos de 2006 e 2007. Em 2008 questões políticas (lembra dos problemas com a China?) impediram o acesso à montanha pelo lado do Tibet (face Norte), mas parece que a expedição de 2009 também foi filmada e virará a terceira temporada. É boa uma dica, até para aqueles que estão pouco se lixando para o Everest ou qualquer outra montanha ou coisa do tipo.

Bom, e o que há de novo? Muito já se falou, escreveu e até houve tentativas de filmagem muito interessantes. Mas imagens iguais às que essa série mostra, duvido que existam. Creio que é, até o momento, o relato mais próximo da mortal aventura que é escalar o Everest. Cada membro da expedição tem um rádio, e é acompanhado de perto pelos guias e sherpas, cada um com uma câmera. Eles filmam tudo, todos os trechos, entrevistam os caras nos principais momentos. Tem coisa que vc nem imagina que pode acontecer. Na boa, do jeito que esses caras fizeram, você está escalando junto. E literalmente fica sem ar em vários momentos da série, principalmente nos dias dos ataques ao cume (são dois times, portanto, dois dias de extrema tensão).

Esse aqui é o trailer da primeira temporada. Acho que os episódios estão no Youtube, mas é mais legal assistir na TV – tente baixar no Vuze):

A narração do Jason Willinger torna tudo “pior” hehe…

E olha só as figuras do time de Russel: um cara que escapou da morte num acidente de moto e tem no corpo mais metal do que carne e osso, um asmático que quer chegar ao cume sem o uso de oxigênio suplementar, um outro fulano que teve as duas pernas amputadas (acredita?), um japonês de 71 anos que, se conseguir chegar ao topo será a pessoa mais idosa a escalar o Everest, outro demente que decidiu ir pra lá depois de uma bebedeira com os amigos, mais outro insano que quer ser o primeiro a fazer uma dupla escalada (ou seja, quer chegar ao pico pelo lado Norte, descer pelo lado Sul e depois subir pelo lado Sul e descer pelo lado Norte). Enfim, cada um com uma “motivação” diferente (e desembolsando a humilde quantia de cerca de 60 mil dólares). Os guias e sherpas da equipe de Russel tem de rebolar na baioneta para ajudar esse povo a cumprir a missão. É, porque, como diria Ed Viesturs (experiente alpinista estadounidense): “Chegar ao topo é opcional. Descer é mandatório!”.

Pra chegar ao cume, imagino, só com as calças borradas. Mas a vista deve ser indescritível...

Pra chegar ao cume, imagino, só com as calças borradas...

Aliás, eu fiquei estarrecido quando descobri que, em 2007, a WADA (World Anti-Doping Agency) havia incluído o oxigênio (suplementar) em sua lista de proibições (o assunto já estava aprovado desde 2003, veja você). Então, se o caboclo conseguisse atingir o cume usando oxigênio, sua ascensão seria considerada inválida. O texto original diz que “é ilegal a melhora artificial de captação, transporte ou transferência de oxigênio durante as subidas da montanha“. Quer dizer, o infeliz tem que morrer mesmo, né? Ainda bem que a partir de Jan/2010 a coisa volta ao normal e o oxigênio sairá da lista de proibições (veja a notícia aqui). Bem, eu não sou montanhista e até entendo quem defenda a não utilização de oxigênio (além do fator “pureza” da escalada, há ainda o possível não recolhimento das garrafas utilizadas, poluindo aquele ambiente fantástico). Mas aí entramos naquela questão sobre o que é esporte e o que é ego, competição etc. Sejamos sensatos: o que me fascina no Everest é o local, a possibilidade de estar lá em cima, não exatamente a escalada em si. Se houvesse um elevador, ou se desse pra subir de helicóptero, pode ter certeza de que eu utilizaria desses meios. Mas não dá, tem que subir no braço e na perna. E como não seria exatamente um movimento de suicídio (ok, a probabilidade de morrer lá é alta, 1 em cada 7 alpinistas morrem – no Annapurna é 1 para cada 3, e no K2 é de 1 para 2), eu gostaria de utilizar todo e qualquer mecanismo para chegar lá, incluindo as “baby bottles”.

É a ridícula hipocrisia. Ué, os caras não querem preservar a pureza das escaladas? Então que baixem uma determinação dizendo que só serão válidas as ascensões feitas por quem estiver PELADO. Sim, pois usar uma parka, um anorak, uma jaqueta, botas, luvas, gorros, óculos, protetor solar, podem te trazer mais conforto e, consequentemente, tornar sua escalada mais fácil. Então é doping, não é mesmo?

Bom, deixando a polêmica de lado, acesse o link da série aqui. Tem uns complementos bem legais, mapas, informações sobre os efeitos da altitude, um game bem bacana e mais). Então é isso, a gente se encontra no Everest em breve…

O ATAQUE DA BOBINA DE TESLA

Essa é muito boa, eu ainda não tinha visto. Dica do brother Renato. Os caras da banda Arc Attack (legal, o som) usam uma bobina de Tesla como instrumento musical. Hã? Como assim? Pois é, eles usam as descargas elétricas do transformador. Dá só uma olhada:

E pra matar a saudade dos tempos de Eletrônica, achei na wiki o esquema elétrico da bobina:

Diagrama elétrico da bobina de Tesla

Diagrama elétrico da bobina de Tesla

É uma baba: a entrada de 220V (ou 110V) passa para 6 a 10KV em T1. L1 e C1 (filtro ressonante) elevam T1 para uma outra tensão de faiscamento em Sg1. As altas frequências geradas em Sg1 alimentam mais um transformador, T2, que aumenta ainda mais a tensão. A saída é ligada a esfera de irradiação. T2 precisa de um outro circuito ressonante, só que dessa vez ele é quase virtual (formado pelas capacitâncias parasitas de T2 e da própria esfera). Pronto! Vc já pode montar o seu em casa…

AT SUCH SPEEDS, THINGS FLY…

[Dedicated to Louise]

“Out of This World” was laying down almost forgotten in my musical memory. Having listened to “Afraid of Sunlight” (which is an underrated album) to the fullest, I simply left the CD unattended somewhere I couldn’t remember. A few days ago the I was struck by the song again. After some years it is as beautiful as ever. And sad though. Hogarth in his primes… There are several videos available, but I chose this one. It preserves the original recording. Images are from BBC Video ‘Across the Lake’ (Coniston Water).

Three hundred miles an hour on water
In your purpose-built machine
No one dared to call a boat
Screaming blue
Out of this world
Make history
This is your day
Blue Bird

At such speeds, things fly

What did she say?
I know the pain of too much tenderness
Wondering when or if you’ll come back again
Wanting to live for you
And being banned from giving

But only love will turn you around
Only love will turn you around
Only love
Only love will turn you around

So we live you and I
Either side of the edge
And we run and we scream
With the dilated stare
Of obsession and dreaming
What the hell do we want
Is it only to go
Where nobody has gone
A better way than the herd
Sing a different song
Till you’re running the ledge
To the gasp from the crowd
Spinning round in your head
Everything that she said

{wiki}: The song is about David Campbell and Bluebird. Campbell was a British racer killed in his attempt to break the water speed record when his boat Bluebird K7 flipped and disintegrated at a speed in excess of 300 mph (480 km/h). Bluebird had completed a perfect north-south run at an average of 297.6 mph (478.9 km/h), and Campbell used a new water brake to slow K7 from her peak speed of 315 mph (507 km/h). Instead of refueling and waiting for the wash of this run to subside, as had been pre-arranged, Campbell decided to make the return run immediately. The second run was even faster; as K7 passed the start of the measured kilometre, it was travelling at over 320 mph (510 km/h). However the craft’s stability had begun to break down as it travelled over the rough water, and the boat started tramping from sponson to sponson. 150 yards (140 m) from the end of the measured mile, Bluebird lifted from the surface and took off at a 45-degree angle. It somersaulted and plunged back into the lake, nose first. The boat then cartwheeled across the water before coming to rest. The impact broke Bluebird forward of the air intakes (where Donald was sitting) and the main hull sank shortly afterwards. Campbell had been killed instantly.

Donald Campbell smiling shortly before he prepared to take his jetboat Bluebird for a run on Lake Coniston

Donald Campbell smiling shortly before he prepared to take his jetboat Bluebird for a run on Lake Coniston

Campbell’s last words (on his final run were, via radio intercom):

Pitching a bit down here…Probably from my own wash…Straightening up now on track…Rather close to Peel Island…Tramping like mad…er… Full power…Tramping like hell here… I can’t see much… and the water’s very bad indeed…I can’t get over the top… I’m getting a lot of bloody row in here… I can’t see anything… I’m going…. oh!

(The voices in the bridge section after “only love…” are the actual recordings of Campbell’s last words – but you can’t really make out what he’s saying…)

Question… why in hell do we have this urge to go beyond, breaking records, testing ourselves. And, you know, it is basicaly a men’s thing. His nature to literally penetrate. See, every weapon men has created – the neutron bomb, the H-bomb, the arrow, the gun, the rockets and so forth – is designed to penetrate. The higher, the farther the better. The Everest, the moon. Nothing can stop him. The most well hidden mysteries. Men have to penetrate and get to know the unknown. Then it all becomes useless again until he breaks into another enigma.

I wonder what Campbell felt in his last moments. Somehow he just could not stop. As an example, sometimes when I am running (very seldom, actually) I get in a “altered state of consciousness”. It’s as if I could not feel my mind at all – all heart and soul connected in a mere daily jogging. Crazy, isn’t it? At 12 – 13 km/h. So you can imagine yourself at 500 km/h. When Campbell tried to describe what was wrong he knew he was being transported to a different zone.  At such speeds, things fly. And only love can turn you round. He paid with his life… but don’t we all?