Meu companheiro de frias Hachide está neste momento numa outra saga. O demente em questão e mais alguns amigos resolveram ir e voltar de moto de São Paulo até Santigo do Chile, Bariloche e o ânus da Patagônia (uns 8mil km). Em 15 dias. Como sempre, uma idéia sensacional rsrs! Ele até iniciou um blog da viagem, mas atualização mesmo, por enquanto, só por uns tweets porcos (só porque eu falei hoje ele resolveu atualizar…)
Eu sinto falta dessas roubadas, e pra matar a saudade dessas experiências que não servem pra nada, resolvi colocar mais um post sobre aquela trilha que fizemos (ou quase), naquele país ibérico, denominada em função daquele santo, compreendendo aquele tanto de quilômetros, inspirando aqueles sentimentos, respirando aquele ar, naquelas condições super legais. Muita gente pediu mais um capítulo e eu estou atendendo, mas vou logo avisando que essas descrições que eu coloco aqui não afetam a integridade do livro, que está escrito mas jamais será publicado, ok?
Então vamos lá. É o dia seguinte ao primeiro dia de caminhada (que vc pode acompanhar aqui):
25/04/2003: Às 3 da manhã o Lombada (Hachide), que se encontrava na parte de cima do beliche ao lado, me sussurra e pergunta se eu estava acordado. Óbvio! Então combinamos de levantar às 5:00 para não termos que ficar mais na cama. Que situação… Para ajudar a passar o tempo, Lombada ficava contando mentalmente o número de vigas da construção do alojamento (primeiro na vertical, depois na horizontal, depois de baixo pra cima, de cima pra baixo, da esquerda pra direita, da direita pra esquerda, na transversal etc. Tenho certeza de que mais um pouquinho ele chegaria a uma equação matemática digna de John Nash, e a humanidade não teria esperado em vão para conhecer o “Primeiro Corolário de Hachide”.
6:15 na porta do albergue, equipados e dispostos a encarar o 2o.dia… e o Papa apareceu (depois eu falo sobre o Papa) e fez um sinal tipo: – Vamos? Nós nos olhamos e fomos atrás. Quer dizer, quase atrás, pois em meio minuto o homem sumiu completamente no meio da escuridão que ainda se fazia presente no amanhecer de Roncesvalles. Nessa parte nós ainda estávamos andando juntos, até que chegamos a um vilarejo no qual havia um supermercado. Parecia miragem!!! Estávamos mais uma vez sem café da manhã e finalmente iríamos comer. Ahh! Foi o pão com salame, atum e queijo mais delicioso que eu já comi, com duas garrafas de Gatorade.
Refeitos, seguimos, mas aí eu fui no meu ritmo e o Lombada no dele. Sei lá, eu não estou competindo com ninguém, mas o meu passo é naturalmente mais rápido e, devo dizer, no nível dos mais fortes nas etapas (fudidão!). Creio que parte disso deve-se ao fato de que a minha mochila está mais pesada que a do Lombada, pois além do notebook e câmera, carrego também todos os respectivos cabos. E não dá pra ficar molengando, senão o peso fica mais evidente e não dá nenhuma vontade de andar. Fora as garrafinhas de água. Andando 27 km não pode bobear… E caminhando mais rapidamente posso também fazer mais paradas, apreciar as paisagens e pensar nas merdas e em tudo o que representa esta etapa (no final concluí que não representou porra nenhuma). Enfim, fui na frente e fiz uma parada de meia hora pra esperar o Lombada. Nos encontramos e trocamos umas mensagens de incentivo tipo “Tá foda, hein?, ou “Minha bota tá me matando”, ou “Só faltam uns 22 km”. Aí nos despedimos novamente e daí em diante fui direto até o albergue de Zubiri, onde muitos peregrinos estavam indo. Mas o combinado era seguir direto pra Larrasoaña, 5km mais a frente (malditos!). Combinado, cumprido. Em muitas partes do caminho você dá uma pirada, principalmente quando fica sozinho, e se vê cantando músicas adormecidas na memória. Eu, por exemplo, sempre cantava “Only The Good Die Young”, do Iron hehe… É que eu estava muito bem de corpo e espírito, entende?
Encontrei o Mário (um dos brasileiros, gaúcho, que conhecemos aqui) e juntos fomos até o albergue daquela cidade. Fomos falando de nossas vidas e das nossas decisões. Ele contou que é piloto agrícola e trabalha apenas no verão (pilota avião, não trator…). Disse que já tinha uns 8 anos que estava querendo vir, mas nunca dava certo, até que desta vez ele veio. Falou que leu Paulo Coelho mas não gostou muito do cara (se ele falasse que odiava o tal escritor, ganharia ainda mais pontos comigo)
Eu e Mário chegamos ao albergue às 14:30 e conseguimos uma cama entre as 16 que existiam. O restante teve que deitar em colchões no chão, inclusive o Lombada, que chegou 1h30 depois (meu amigo tá sofrendo…, tô com dó). E o pior é que ele deitou ao lado do mesmo italiano que soprou ronco na minha cara na noite passada. Tá lascado!
Lavei umas roupas, pus as mesmas pra secar e fiquei deitado com as pernas ao sol pra ver se eliminava a mufutanga dos meus pés (Dear Lord, tá cada dia pior!!!) Mas com o sol melhorou a lot! Fui pra cama atualizar os relatos e nessas horas eu sempre tento ser o mais discreto possível pois não é fácil abrir um laptop de 3kg (era 2003, lembra?) sem fazer alarde (e sempre tem um monte de olhudo e curioso vindo perguntar…) Mas como dizia aquele grande filósofo contemporâneo Cléber Bam-Bam: “Faz parte”…
Mais à tarde, os brasileiros (Caveira (eu), Lombada, Mário e Ricardo) saíram pra relaxar no bar do Sr. Sangalo (uma figura, o pai da Ivete é daqueles espanhóis de voz forte e fazia piadas com os brasileiros o tempo inteiro). Ficamos lá papeando e adivinhe quem apareceu: o Papa. Agora vou contar sobre ele: o Papa-léguas é um senhor alemão de quase 67 anos que é a cara do Papa (João Paulo II). Nós o conhecemos no início da descida da etapa de St. Jean e ele não desgrudou mais. Ele não fala nada de inglês e nós nada de alemão, então a comunicação é apenas metafísica. Acho que ele me adotou, pois sempre me pedia pra ajudá-lo ou combinava alguma coisa comigo. Pelo que pude decifrar ele contou que está vindo de 8 países a pé (!!!) e já fez 25 vezes o Caminho de Santiago (afinal ele é o Papa…). Falar o quê? E sem esquecer que ele tem as pernas clac-clac…
Pedimos o Menu del Peregrino daquele dia e voltamos pro albergue, onde ficamos conversando com o Santiago, responsável pelo albergue. Uma figura fantástica, carismática, de um coração enorme, acolhedor, sensível, puro, inesquecível (hahaha) que adora brasileiros e que ajuda todo mundo. Até me emprestou o celular pra eu fazer umas ligações (locales, é claro…).
Aí chegou a hora de dormir, o desespero de todo dia:
Nesse albergue os beliches são grudados uns nos outros de dois em dois, o que significa que não tem jeito, colado em vc vai dormir alguém. A gente só fica rezando para que seja alguém que não ronque muito alto. Antes de dormir eu dei uma olhada pra figura que ia “dividir a cama” comigo: um espanhol magrinho e com cara de poucos amigos. Não me animei muito e já pressenti o pior, pois o cara já baforava só de arrumar a mochila dele, então já viu como ia ser quando dormisse… Ah, mas por mais certo que eu estivesse, não podia imaginar o verdadeiro inferno que viria: depois de uns 5 minutos após deitar, a “coisa” do meu lado abriu o saco de dormir e a perninha magra dele já caiu parte na minha cama. Deprimente! Empurrei-a de volta com o joelho (estávamos os dois na parte de cima). Logo a seguir ele começou a roncar (nada muito forte, mas irritante). E como fedia o desgraçado! Uma carniça finíssima. Aí veio o que eu mais temia: sem a menor cerimônia, o filho da puta começou a emitir bombas de gás , e juro, não eram aqueles peidos de fininho que as pessoas dão quase travando o botico… eram aqueles altos tipo PRÁÁÁÁÁÁÁ!!!, e na minha direção. Que Hijo! Assoprei com toda a força dos pulmões e implorei ao Nazareno: “Jesus, me proteja neste momento de putrefação explícita e falta de educação ao meu lado!!!!!!!” Não adiantou: um minuto depois, o cara deu outro mais forte… PQP, isso misturado com o chulé e a podridão do CC da galera, tava pior que aterro sanitário. E o que eu podia fazer? Brigar com o cara e ser linchado pelos outros que queriam dormir? Peguei então minhas coisas e fui dormir no chão gelado da entrada do albergue. Um americano que acompanhava toda a lamentável cena me viu fazendo isso e me seguiu, disse que também não tava conseguindo aguentar. Ricardo e Mário continuaram no esgoto, não sei como. É claro que não dormi muito bem, mas pelo menos respirei ar limpo… Que situação, e é só o segundo dia…
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