majauskis

UM CÉU PARA CRUZAR

In Livros, Our Brave New World on 3 fevereiro 2010 at 11:02 am

“Nada é mais repugnante do que a maioria, pois ela compõe-se de uns poucos antecessores enérgicos; velhacos que se acomodam; de fracos, que se assimilam, e da massa que vai atrás de rastros, sem nem de longe saber o que quer.”

(Goethe)

Todo mundo conhece Leonardo Boff. O autor da “Teologia da Libertação”. Muito debatida nos anos 80, ela teria como propósito a opção pelos pobres, porém, segundo Boff, a partir de uma libertação através de recursos espirituais e éticos. Trabalhar pelos pobres não parece exatamente uma novidade que a igreja não pregue. Por que, então, o Vaticano foi e continua tão contrário às idéias suscitadas pela TL? Por uma fundamental diferença: em vez do assistencialismo (os pobres como objeto de ajuda, compaixão ou caridade), que mantém o indivíduo na dependência, os pobres seriam colocados como protagonistas da própria história, ou seja, devem mover-se com ferramentas proporcionadas por momentos de indignação, resistência e libertação (por favor, não confundir com MST e outros movimentos oportunistas e criminosos).

O quase excomungado Leonardo Boff

Obs.: com tantas idéias revolucionárias, não é de se admirar que em 1984, o Vaticano proibiu o então frei Boff de continuar as discussões sobre a TL. Ainda em 84, frei Boff foi punido com um ano de “silêncio obsequioso” pela Igreja. Mas ele continuou sendo ameaçado, e mais ou menos oito anos depois, encheu o saco, decidiu renunciar às suas atividades de padre e se “auto-promoveu” ao estado leigo, veja você…).

Pois bem, nem vou me alongar discutindo se a teoria de Leonardo Boff é utópica ou não. O fato é que eu acabei lendo muita coisa dele, e especialmente um livro chamado “A águia e a galinha“. É, evidentemente, uma metáfora, até bem óbvia, que surgiu através das palavras de um educador ganês chamado James Aggrey. Por incrível que pareça, histórias desse tipo tiveram um papel muito bacana durante o processo de proclamação da independência de Gana, rompendo com a administração colonial inglesa. James Aggrey incentivava em seus compatriotas ganeses sentimentos de solidariedade e autonomia.

A história que James Aggrey conta é a seguinte (reprodução do livro):

[Em meados de 1925, James havia participado de uma reunião de lideranças populares na qual se discutiam os caminhos da libertação do domínio colonial inglês. As opiniões se dividiam.

Alguns queriam o caminho armado. Outros, o caminho da organização política do povo, caminho que efetivamente triunfou sob a liderança de Kwame N'Krumah (nota: N'Krumah fundou oPartido da Convenção do Povo, foi eleito Primeiro-ministro em 1952 e proclamou a independência em 1957). Outros se conformavam com a colonização à qual toda a África estava submetida. E havia também aqueles que se deixavam seduzir pela retórica dos ingleses. Eram favoráveis à presença inglesa como forma de modernização e de inserção no grande mundo tido como civilizado e moderno.

James Aggrey

James Aggrey, como fino educador, acompanhava atentamente cada intervenção. Num dado momento, porém, viu que líderes importantes apoiavam a causa inglesa. Faziam letra morta de toda a história passada e renunciavam aos sonhos de libertação. Ergueu então a mão e pediu a palavra. Com grande calma, própria de um sábio, e com certa solenidade, contou a seguinte história:

“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.

Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

- Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.

- De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ele não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.

- Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.

- Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:

- Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

O camponês comentou:

- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!

- Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurou-lhe:

- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!

Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.

O camponês sorriu e voltou à carga:

- Eu lhe havia dito, ela virou galinha!

- Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez, Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:

- Águia, já que você é uma águia, já que você petrence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus polhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmemento…”

E Aggrey terminou conclamando:

- Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.]

Assim que eu assumi a direção de uma determinada empresa, fiz questão de dar um exemplar desse livro para cada um dos meus gerentes. A idéia era simples: a moral dos funcionários estava em baixa, a empresa havia sido tratada como armazém de refugos por muitos anos, e como galinhas nós não conseguiríamos nada. Nem sei se todos leram o livro, eu nunca cobrei isso. O que eu não queria é que as pessoas voassem nas asas dos outros. Se eu obtive sucesso? Sim, eu obtive. Mas nem todas as águias querem ouvir um sussurro ao ouvido.

NÃO É FIM

In Poetry on 29 janeiro 2010 at 11:11 am

Direto, sem revisão… I don’t care!

Sem querer eu descubro

Numa reflexão sutil e elaborada

O inferno é o emocional

Um lubrificante social

Que o vento cravou em mim

O amor é meio, não é fim

Escolho o ar, a respiração, o inusitado

Proteção pra ti sou eu do seu lado

Eu atravesso tudo isso a nado

E quando a vida fica meio assim

O amor é meio, não é fim

Tanta correria, cansaço e tortura

Pra ser no máximo um nome de rua?

A carne continua crua…

…e  o caminho é de mão dupla

Sobe na competição, desce na culpa

Pra que guardar tantos segredos?

Vão-se os anéis, ficam os medos

Melhor deixar as crianças no jardim

O amor é meio, não é fim

E se nada funcionar a contento?

Existe mesmo pecado por pensamento?

Cair nas águas do esquecimento?

A noite parece não ter fim

Assim como o amor, que é meio, não é f…

Prefiro o amor pela manhã,

O gosto da madrugada na pele

Antes que meu coração congele

Eu disse que não seria tão ruim

O amor é meio, não é fim

Enfim.

SONAMBÚLICO

In Music, Song Of The Day on 25 janeiro 2010 at 4:10 pm

Hoje eu poderia escrever sobre a periferia, sobre a fábrica que escurece o dia (456 anos de São Paulo). Mas a cidade não anda merecendo muitas celebrações.

Escolhi então como tema Jack Green, ex-guitarrista do T-Rex. Início dos anos 70. E eu adoro os anos 70. Como eu já disse uma vez, eu gostaria de ter nascido uns 10 anos mais cedo. Queria ter aproveitado os anos 70 nos quais, na minha modestíssima opinião, foi feito quase tudo em termos de rock. O que veio depois foi só surfista aproveitando e variando na onda do que foi criado naquela época.

Eu já conhecia o Sr. Green. Mas agora estou explorando um pouco mais os trabalhos solo dele. Começo a ouvir o primeiro álbum, “Humanesque”, e de repente percebo uma música bem conhecida: “Valentina”. Eu a conhecia no trato de uma banda gaúcha de surf rock chamada “Off The Wall”. E nem imaginava que eles haviam coverizado a canção, e que ela era justamente do Jack Green. Essa bandinha é até bacana, o que a derruba é o sofrível inglês do vocalista. Mas eles pelo menos escolheram bem em quem se inspirar.

Enfim, segue abaixo “Walking In My Sleep”, do álbum” Mystique“. Essa poderia muito bem ter sido escrita e cantada pelo Tom Petty. Cabe lembrar que  Roger Daltrey também já fez versão dela (veja a versão de Roger aqui). Jack Green is very coverable rsrs…

Coming out in frozen evening
You can see the shapes of night
Raise her brightness in the red light
Cuts you like a silent knife

The moon shines down
She sees she knows
And I follow
Through rain and sun
Shining around
And let me go

Can’t you see I’m walking in my sleep
And I don’t know how I got here
And when I try to keep the beat
You see I’m walking in my sleep

Lookin’ ’round at all the faces
I can see they’re all the same
Drifting shadows on the sidewalk
Slowly walking through the rain

The moon shines down
She sees she knows
The star the end
The tide the flow
And I follow
Through rain and sun
Shine down around
And let me go

‘Cause you see I’m walking in my sleep
And I don’t know how I got here
And when I try to keep the beat
You see I’m walking in my sleep
Walking in my…

The rain pours down
It hurts the queen
The more and more
From there and squeeze
As we pass to this nighttime dream
And when we do
Slowly downstream

You see I’m walking in my sleep
And I don’t know how I got here
You see I’m walking in my sleep
And I don’t know how I got here

You see I’m walking in my sleep
And I don’t know how I got here
You see I’m walking in my sleep
And I don’t know how I got here